6 meses acabaram…

Os 6 meses do Inov acabaram…
Os 6 meses de viver em Londres acabaram…
Os 6 meses de viagens acabaram…
A última semana foi passada a queimar os últimos cartridges
Percorremos pub’s, festas e paródias numa luta desenfreada para aproveitar ao máximo os últimos minutos em Londres, todos juntos… A batalha parecia ser injusta porque um sentimento de impotência perante o inevitável acompanhava-se pela inércia que sentíamos sabendo que dentro de pouco tempo tudo aquilo terminava…

Focando nos últimos dias, Sexta fomos ao local de passagem de testemunho, ou por outras palavras, a mudança de reinado C12 para o C13, a discoteca Shunt.
Trata-se de uma discoteca na estação de comboios de London Bridge e que apesar da sua porta pequena e discreta, na verdade, esconde um mundo imenso e peculiar.
A sensação ao entrarmos neste espaço é de estarmos a entrar numas catacumbas da Idade Média de um antigo castelo com uma decoraçao inexistente e de paredes feitas de pedra frias e escuras…
Uma pequena sala revela-se em que a música é feita pelos próprios clientes, isto é, folhas com a letra da próxima música são passadas pelos clientes e, acompanhados por um piano, todos se tornavam protagonistas musicais…
Depois de continuarmos a nossa travessia por entre túneis e arcos escuros, com peças de arte literalmente macabras, como uma taça com um liquido idêntico a sangue, encontrámos uma funcionária numa esquina que aponta o caminho a seguir… A música e o barulho da multidão começa agora a ser audível…
Ao entrarmos finalmente no espaço de bailarico, a música dos anos 60 e 70 fazia prever uma noite bastante divertida e animada.
O T. teve a excelente ideia de trazer uma garrafa dentro das calças o que possibilitou uma rápida e fácil adaptação à música e ao ambiente…
No final da noite aconteceu-me algo que nunca me tinha acontecido em 6 meses… Adormeci no autocarro e saí na ultima paragem com o motorista a acordar-me… Valeu-me ter apanhado o autocarro que acaba não muito longe de minha casa…

A noite em si, foi mais uma das nossas… dos London Legends

Sábado foi dia de barbecue… dia em que a ressaca de sexta parecia assombrar a nossa despedida mas Sábado apresentou-se quente e radiante… Depois de compras de última hora, de variados kits na Primark, a festa estava para começar…
Vestidos a rigor, eu e o T., anfitriões da festa de despedida, não estávamos propriamente com o espírito de festejo, e isso era notório tanto para um como para o outro… Palavras de apoio, conversas sobre o que tínhamos passado, como veteranos de guerra, e o abraço eventual foi o que mais se passou na festa…
Foram trocados cartões e pequenas lembranças, com votos de voltarmos a estar todos juntos um dia…
3 garrafas de champanhe depois, a festa acabava, o T. partia para o aeroporto e eu preparava a minha mala para o dia que se seguia…

Os 6 meses acabaram…
Os melhores 6 meses da minha vida acabaram…

Como funciono...

À medida que vou ultrapassando os diferentes estádios na minha vida, começo a aperceber-me de algumas formas do meu funcionamento que outrora não eram claras para mim…
Cheguei à conclusão, à pouco tempo, que passo por 4 fases aquando planeio a minha vida…

A primeira – Ansiedade – é caracterizada pelo chamado estado pseudo-ansiólitico em que fico enquanto espero que uma nova experiência ou situação se apresente e se revele.

No entanto, ao alcançar esse objectivo passo para a segunda fase – Insatisfação – isto é, fico contente por um curto espaço de tempo, mas fico insatisfeito rapidamente, porque ao ter atingido o meu alvo, preciso de encontrar quase de forma imediata algo para preencher o espaço vazio deixado pela primeira fase.

Esse espaço é então ocupado pela terceira fase – Medo – ou talvez só preocupação pelo desconhecido, ou seja, meti-me numa situação nova, e só depois de estar realmente garantida penso se será mesmo aquilo que quero, ou como será, como terei de agir e se serei feliz com a decisão tomada.

Estranhamente entro na quarta fase – Próximo passo – em que todo o processo recomeça, em que procuro alternativas ou planos B’s, para ter o cérebro ocupado e de consciência tranquila que estou a pesquisar hipóteses e cenários variados.
Apercebo-me finalmente que sou insatisfeito por natureza.
Se alcanço algo, sem comando sobre os meus raciocínios, um sentimento de “se cheguei aqui, porque não tentar chegar ali…” toma conta de mim; tira-me sono, ocupa-me os sonhos e manifesta-se constantemente ao longo do dia…

Um dia desiludo-me, e sei disso, mas até lá…

Londres mudou-me

Não incluo este post nas rubricas "Mas Londres é isto" porque de facto não se trata de um episódio isolado mas o colmatar de toda uma experiência nesta cidade que não dorme, neste local onde tudo acontece e onde tudo existe.

Londres mudou-me pela sua abertura de espírito e atitude.
Interagir e falar com pessoas aqui é muito fácil, e não me estou a referir aos engates, que sim também os considero mais fortuitos, mas não o que mais diferenciam esta metrópole.
A minha noção da frieza inglesa caiu por terra aquando em contacto com os nativos da ilha, a sua amabilidade e disponibilidade ultrapassaram as minhas expectativas, traduzindo-se na simples vontade de ajudar.
É mais comum, porém, ouvir na rua uma língua estrangeira ao invés do esperado inglês, pedir direcções na cidade é perguntar a um espanhol, búlgaro, sueco ou brasileiro por onde ir na capital inglesa. Estes levam-nos pela mão se necessário e é um facto que penso dever-se porque numa dada altura, num dado momento das suas vidas, também eles se sentiram perdidos na imensidão de Londres e na sua agitação constante.
O humor britânico já é famoso mundialmente, mas o que eu não sabia, é que trata-se de um sentido de humor apurado e generalizado, ou seja, aquilo que vemos nos míticos filmes dos Monty Python são de facto o género de piadas que oiço todos os dias sobre os mais variados temas, desde a morte, a religião, o sexo, etc…

O meu contacto com a música Londrina passou pela passagem dos vários nightclubs mas também pela ida a alguns concertos, como o de Mark Hole, um artista na tentativa de ascenção mas com um som diferente e letras peculiares, mas também com os mais conhecidos Blur e Crystal Castles.

As houseparties, conceito ainda um pouco embrionário em Lisboa, acontecem uma vez por semana, pelo menos. O bom tempo que se faz sentir é a desculpa perfeita para os barbecues em que toda a gente é convidada e incentivada a trazer amigos. São sem duvida grandes paródias nas mais variadas línguas, com peripécias de todo género, como por exemplo, nesta ultima, um espanhol encostou-se a uma vela e como nos filme fez o lie down and roll around para apagar o fogo que se começava a espalhar nas suas costas.


Londres mudou a minha maneira de vestir, visivelmente observável pelo facebook, e várias vezes comentado pelos meus mais queridos(as), com a introdução das gravatas, coletes e chapéus. Os ténis passaram dos All Star, que ainda uso em dias mais descontraídos, para o género de ténis mais smart casual, que agora já pertencem aos meus conjuntos predilectos para sair à noite. O cabelo voltou a crescer, deixando o look de cabeça rapada para penteados mais extravagantes, tal como a barba, que outrora não existia e que agora já faz parte da minha imagem.

Os meus próprios sentimentos e a forma como lido com eles mudaram.
As amizades que travei em Londres são intensificadas pela sua variedade e necessidade de relacionar-me com pessoas diferentes. A minha vizinhança foi, sem duvida, um dos principais factores pelo sucesso da minha experiência londrina, em Smallbrook Mews, guardarei com carinho as muitas conversas e pints que partilhei com a Filipa (PT), Sara (ES), Elisa (IT), Linda (IT), Andrew (ENG), Tom (ENG), Marion (FR), Pedro (PT), Raj(AUS), Brian (EUA), Cambell (ENG), Sid (IND), Jeff (USA), entre outros... De entre todas elas, levo a frase que mais me marcou: “Miguel, tu haces amigos até en el desierto, no te preocupes.”, que me fez sentir realmente querido neste grupo de bairro mas também como um voto de confiança para o meu futuro ainda incerto e escondido.
Sinto que gosto mais dos meus amigos, que apesar de longe, quando falo com eles, digo e partilho mais de mim e aquilo que sinto, independentemente do assunto. Sou mais honesto comigo mesmo e mais frontal com os outros. Tenho mais vontade estar com eles, saber o que pensam e sentem, ou seja, estou mais sentimentalista, vá.
Em termos de relações familiares também mudei bastante, umas provaram ser frágeis e outras mostraram-se mais fortalecidas com a minha experiência.
Nas relações amorosas, as lições foram muitas, variadas e em diversos sentidos… Tenho dito.

Em suma, hoje sinto mais, vivo mais e quero mais…

Londres mudou-me…